Por: Fabricio C. Albuquerque, Guilherme O. Longo, Luiza S. Waechter, Mariana Bender, Filipe M. França

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A pesca costeira é fundamental para o sustento, a cultura e a alimentação de milhões de pessoas em todo o mundo. No Nordeste do Brasil, comunidades tradicionais de pescadores dependem fortemente dos recursos marinhos não apenas para gerar renda, mas também como principal fonte de alimentos de origem animal. Ao mesmo tempo, os ecossistemas costeiros tropicais estão cada vez mais ameaçados pela pesca excessiva, pela degradação de habitats e pelas mudanças climáticas, o que gera preocupação sobre como a perda de espécies pode afetar a nutrição e o bem-estar dessas populações.
Neste estudo, investigamos como diferentes alimentos de origem animal contribuem para a dieta de comunidades tradicionais de pescadores no litoral do Nordeste do Brasil, com foco especial nos peixes marinhos. Combinamos informações sobre o consumo de alimentos de origem animal pelas famílias de pescadores com dados detalhados sobre a composição de nutrientes essenciais nesses alimentos (cálcio, ferro, selênio, zinco e ácidos graxos ômega-3). Assim, avaliamos os padrões alimentares das famílias e analisamos como a possível perda de espécies de peixes, causada por múltiplos impactos humanos, poderia afetar o fornecimento de nutrientes.
Descobrimos que os peixes marinhos são a principal fonte de proteína de origem animal nessas comunidades, representando cerca de um terço de todo o consumo mensal desse tipo de alimento. Além disso, diferentes espécies de peixes fornecem combinações distintas de micronutrientes, o que significa que a diversidade de peixes consumidos é essencial para garantir uma boa nutrição. Nossos resultados mostram que os peixes marinhos podem fornecer até 70% dos nutrientes essenciais disponíveis para as famílias de pescadores, especialmente cálcio, selênio e ômega-3, nutrientes importantes para o crescimento infantil, o funcionamento do sistema imunológico e a saúde do coração.
Ao simular cenários de perda de espécies, observamos que a extinção de apenas um quarto das espécies de peixes capturadas localmente pode levar a reduções superiores a 70% no fornecimento de nutrientes essenciais. Isso revela o quanto as comunidades costeiras podem ser vulneráveis à perda de biodiversidade, mesmo que a quantidade total de peixe consumida permaneça alta.
Nossos resultados indicam que políticas de manejo da pesca e conservação da natureza podem contribuir mais para o bem-estar humano ao considerar explicitamente o valor nutricional das espécies. Incluir informações sobre nutrição na governança pesqueira — junto com medidas tradicionais como captura e biomassa — pode ajudar a proteger espécies e ecossistemas que são especialmente importantes para a segurança alimentar e nutricional, fortalecendo as conexões entre pessoas e natureza nos sistemas costeiros.